segunda-feira, 28 de maio de 2007

A espera de Doraci




Nas escadas da Igreja do Rosário, no centro de Belo Horizonte, Dona Doraci espera. Ela espera que alguém pare para escutar sua estória. Dona Doraci carrega várias sacolas com roupas, remédios, calçados, objetos pessoais e uma cestinha azul com uma cartela quase vazia de Amoxilina e algumas poucas moedas. Essa senhora veio com seu marido e filhos do interior de Minas Gerais para Belo Horizonte há 11 anos de uma cidadezinha perto de Mantena, e procura por seu marido, que ela diz ter ido para uma cidade do Vale do Jequitinhonha, depois de ter sofrido uma tentativa de homicídio no bairro 1º de Maio, onde moravam. Segundo ela, seu marido tem familiares nessa cidade e se dispuseram a ajudá-lo, nesta situação, Dona Doraci não foi com ele por causa da falta de dinheiro. Ela não tem sequer 40 reais para uma passagem de ida para ver como esta o marido. Ela ainda disse que seu marido bebia muito e vivia caído na porta dos bares do centro de Belo Horizonte. Dona Doraci tem filhos e netos, mas segundo ela, não há espaço para ela na casa deles, sendo assim, ela continuou no barraco no bairro 1º de Maio onde morou sozinha por alguns meses, mas como tinha medo de que invadissem sua casa para roubar-lhe a vida- que é a única posse dessa senhora-, mudou para um bairro tranqüilo, porém distante da região central de BH, cujo nome é Engenho. Ela diz que tem medo de ficar sozinha em um lugar tão longínquo, morrer por lá e ninguém saber o que houve com ela. Dona Doraci é um ser humano pedinte, como outros seres humanos pedintes que ficam nas escadarias das igrejas do centro, contudo, o substantivo pedinte não deveria ser um empecilho para que as pessoas vissem o ser humano que ela é. Ela tem memórias, lembranças, família - apesar de na sua atual condição estar sem ninguém -, mas mesmo assim, mesmo sendo uma pessoa como outra qualquer, um indivíduo, Dona Dorací ainda parece invisível aos olhos da sociedade, que sequer percebe seu suplício a beira a igreja Nossa Senhora do Rosário.


Em 2002, o Brasil contava com 16.022.231 de pessoas com mais de 60 anos, o que representa uma fatia de 9,3% da população, sendo que 56,00% desses idosos eram mulheres. Segundo o IBGE, “em 2020 os idosos chegarão a 25 milhões de pessoas - 15 milhões de mulheres - numa população de 219,1 milhão. Eles representarão 11,4% da população.” Dona Doraci tem 63 anos e é uma dessas milhões de idosas que existem hoje no Brasil. É importante que a sociedade civil, que é composta de idosos também, reveja a situação desta estratificação etária hoje, pelo fato de pesquisas populacionais sobre o Brasil estarem colocando em evidencia um país com grandes esperanças de vida ao nascer e, considerando essa informação, podemos dizer que o Brasil hoje está com uma considerável parte da população mais velha - fenômeno social esse que tende a crescer mais - considerando a queda da taxa média de crescimento da população que vem caindo desde da década de 60, a qual tinha a taxa média de crescimento 2,89% e “no último período censitário(1991 a 1996), chegou a 1,38%”. De acordo com o relatório, “Indicadores Sociais Mínimos”, disposto no sitedo IBGE: “Entre 1940 e 1990, a esperança de vida ao nascer aumentou de 41,5 para 67,7 anos de idade(IBGE, Censos demográficos) .Os maiores ganhos de esperança de vida ocorreram na década de 80, quando aumentoude 53,5 anos de idade em 1970 para 61,8 anos de idade em 1980. (Indicadores sociais: uma análise da década de 1980. Rio deJaneiro: IBGE, 1995. p33, quadro 4).” Situações de descaso como a de Dona Doraci refletem o valor que não é dado aos brasileiros que atingiram a maturidade e deveriam contar com um apoio maior da sociedade civil e do Estado pelo fato óbvio de, primeiramente, serem seres humanos e nesta condição terem direitos básicos assegurados pelas convenções sociais como: saúde, moradia, alimentação, lazer, educação. Além disso, para que haja uma verdadeira tomada de consciência da população em relação a problemática situação do idoso, é essencial que a mídia faça o debate em torno do problema, convidando a sociedade a propor políticas públicas e manifestando-as efetivamente através de suas representações políticas. Quando nos voltarmos para garantir os direitos básicos que um ser humano tem, estaremos contribuindo para a construção de uma sociedade mais digna, enquanto isso não ocorre, Dona Doraci espera nas escadas da Igreja do Rosário.


Referência
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/indicadoresminimos

Tarsila Costa

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