sexta-feira, 25 de maio de 2007

Os jovens brasileiros, a educação e a favela.



Ele sai, tranca a porta de seu barraco e olha a cidade lá da vila do Cafezal, suspira e vai para mais uma jornada de trabalho de dez horas. Descendo as escadas ele pensa que ainda é terça-feira, pensa que ainda precisa entrar na faculdade e para isso precisa continuar no seu emprego para manter sua vida. Às vezes ele se questiona quanto tempo ele gasta trabalhando naquela clínica como auxiliar administrativo. Às vezes pensa até em ficar na cama e largar tudo: trabalho, arquivo, computador, chefe de setor, mas cinco minutos depois de ter essa idéia, sua irmã mais velha bate na porta para assegurar se ele já acordou para o trabalho, nesse instante ele se desapega dessa idéia, porque sabe que as contas daqui alguns dias chegarão.

Essa realidade se repete com vários jovens nos grandes centros urbanos brasileiros. A região sudeste, onde há 41,3% dos jovens brasileiros entre 15 e 24 anos - número este que corresponde a maior parte desse segmento em relação as demais regiões do país - estrutura-se como a região mais jovem do Brasil. Ainda no sudeste a partir dos 14 anos há um significativo decréscimo das taxas referentes à presença dos brasileiros na escola. Se na região sudeste dos 7 a 14 anos 95,5% dos brasileiros estão na escola, dos 20 a 24 anos esse número cai para 22,5%. Os jovens abandonam o estudo em prol do trabalho, boa parte desses habitam nas periferias e nas favelas. Como o caso de Marcos Antônio, morador da favela do Cafezal. Ele abandonou a escola com 13 anos para trabalhar porque, segundo ele, era a prioridade no momento. Hoje Marcos tem 26 anos, trabalha durante a semana e aos sabádos faz curso técnico de autocad, ele pensa em concluir o ensino médio e ingressar na faculdade de arquitetura.

Final do dia é a hora de regressar para sua casa. Ônibus lotado, ele olha para as pessoas do ônibus e vê que a maioria delas também cumpriram uma longa jornada de trabalho, e naquele momento só querem chegar em casa para descansar daquele dia, ainda mais sabendo que amanhã terão mais um dia de trabalho, de ônibus lotado, de centro as 18 horas da tarde. Ele desce do ônibus, olha para favela e vê os barracos amontoados. Vê as luzes amarelas espalhadas pelo morro afora, sente algo confuso. Pensa na boca-de-fumo que terá que passar para chegar à sua casa, nas armas, na vulnerável segurança sua, de sua família e de seus vizinhos, sobe as escadas, chega na porta de seu lar, suspira e entra.

De acordo com a Prefeitura de Belo Horizonte o Aglomerado da Serra é formado por 6 vilas:"Marçola (também conhecida como favela Cabeça de Porco), Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora Aparecida (conhecida como favela do Pau-Comeu), Nossa Senhora da Conceição, Cafezal e Novo São Lucas", embora a população local, a imprensa e alguns estudos dizem que nesse Aglomerado há 11 vilas, entre elas a vila Antena e vila Fazendinha. Ainda há controvérsias em relação ao número de habitantes do aglomerado. Segundo a URBEL, a população total do aglomerado é de 37.641 habitantes, já para o Distrito Sanitário Centro-Sul, os dados apontam para 38.025 habitantes. A Secretária Municipal de Desenvolvimento Social estima uma população de 45.920, e a imprensa(Rádio Favela, Estado de Minas e Folha de São Paulo) afirma morar ali 160.000 habitantes.
Tantas controvérsias em relação ao número de seres humanos que coabitam num espaço deixa bem evidente o descaso da sociedade civil e do Estado em relação a essa situação precária de moradia que muitos brasileiros vivem hoje na região sudeste e nas demais regiões urbanizadas brasileiras. Considerando que na Vila Nossa Senhora de Fátima-localizada no Aglomerado da Serra- existe apenas 10% de saneamento básico, a água encanada está disposta para 70% da população e o acesso a coleta de lixo é restrito apenas a 48% da pop. dessa vila.
Ele toma banho, janta e assisti o jornal nacional, em seguida chega da janela do seu barraco e vê os reflexos azuis das tvs ligadas no morro, fica um tempo pensando em algo distante, até escutar os foguetes, ele corre e vai conferir se toda sua família está em casa, depois de ter essa certeza fecha a janela e vai dormir.

Referências

Tarsila Costa

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