
A caminhada pelas ruas centrais de Belo Horizonte nos fez perceber diversos contrastes sumamente urbanos: na medida em que empresários passavam com seus ternos alinhados, pessoas caídas defronte a hotéis, bancos, no meio de quarteirões fechados estiravam seus braços em um suplício de atenção, de reconhecimento, parecendo bem mais um grito mudo que dizia: "Olha, eu estou aqui! Eu existo e tenho fome, eu existo e estou passando mal, eu existo"! E mesmo assim, com todo a conjuntura da situação culminando para que esses indivíduos fossem percebidos, seja pela gravidade da situação, seja pela intervenção urbana proporcionada por eles, ali, caídos em meia à rua, as pessoas passavam desdenhosas, sem notar aquele brado silencioso lhes pedindo ajuda, somente isso; ajuda. Essas frases encaixam-se perfeitamente no caso de Dona Augusta. Augusto, no dicionário, refere-se a grandioso, sumptuoso, respeitável, majestoso. O mesmo dicionário não faz menção à palavra Augusta. Essa senhora parecendo seguir a lógica do dicionário escolar da língua portuguesa não é percebida como uma grandiosa pessoa, uma majestosa pessoa, sequer uma respeitável pessoa: Dona Augusta parece não existir ao olhar apressado da cidade. Sua lida consiste em conseguir dinheiro para se sustentar através de doações de quem ali passa e nota sua angústia, e como bem ela disse, catar latinhas na rua. Estampado em sua perna esquerda está um grande machucado, medindo aproximadamente a circunferência de uma moeda de 50 centavos. Em seu peito – que ela fez questão de nos mostrar – existe um grande hematoma que ela queixa ser os efeitos de uma cirurgia mal realizada. A nova cirurgia, programada pelo SUS, para refazer o que de errado foi feito, esta programada para começo de Agosto. Mas por algum motivo pessoal ela não se alongou muito na questão da cirurgia. Até lá Dona Augusta perambulará pelas ruas a procura de alguns trocados para interar no dinheiro dos seus remédios e conseguir alguns poucos reais para se alimentar da forma que conseguir. A maneira como se acomodava era curiosa: em cima de um pano esmiuçado, meio rasgado pelas laterais, Augusta se sentava, ali mesmo, em um concreto rígido e desconfortável. Segundo ela mesma, sentara-se ali por que estava cansada demais para catar suas latinhas e não conseguiria fazer esse trabalho no momento. Em Belo Horizonte, segundo o IBGE, o número de pessoas marginalmente ligadas ao PEA (população economicamente ativa) atinge em abril de 2007 o número de 171.000. Dona Augusta, de uma forma ou de outra, esta atrelada à informalidade, seja pedindo esmolas, seja catando latinhas. Ela era também parcialmente cega. Enxergar uma pessoa, como nos contou, era um trabalho de reconhecimento da voz juntamente com a imagem. Somente assim ela conseguia olhar e reconhecer. Quando pedimos para tirar uma foto, justificando a atitude por intermédio de um trabalho que faríamos para a faculdade, ela se negou terminantemente. Não permitia em hipótese alguma e demonstrou, inclusive, um receio enorme de que viessemos a tirar a fotografia sem ela perceber. Em meio à conversa perguntamos a ela a respeito das pessoas que viviam com ela, e numa frase meio desolada, com um tom de angustia, ela respondeu: "comigo, só mora Deus. Meu filho morreu há dois anos com ataques de epilepsia; ele não se medicava direito". E como à senhora faz Dona Augusta? "Eu? Vou tocando a vida da forma que dá". Descobrimos no decorrer da conversa que Dona Augusta havia morado no sul - que não conseguimos diferenciar precisamente se era o sul de Minas ou mesmo o sul do Brasil -, mas não tinha dinheiro pra voltar, nem mesmo depois da cirurgia. Bem que ela tinha vontade, mas as circunstâncias não permitiam. Enfiei a mão no bolso, tirei uma única nota de um real que tinha e dei a ela. Agradeceu-me muito citando Deus em todo seu discurso, e ao lado, passando curiosos, pessoas olhavam pra nos, como se fosse algo anormal parar e conversar com quem pede ajuda - ajuda que não se restringe unicamente a dinheiro –, e sim o reconhecimento individual, de um cidadão que existe, e deve ser percebido. Ao final saímos andando um pouco desolados e, mais à frente, avistamos um senhor escornado ao pé de um poste, com a blusa aberta, os olhos taciturnos, barba longa e mal tratada e uma expressão de imobilidade - talvez oriunda de alguma doença ou fome - e por onde foi seguindo nosso olhar, em acompanhamento com nossas pernas, avistávamos pessoas extremamente doentes, caídas, desacreditadas nos próprios direitos, na própria condição de ser humano. E seguindo a lógica do circo de horrores, a esmola implorada pelas pessoas esta atrelada às enfermidades visíveis de cada um: quanto mais angustiantes forem seus problemas externos; ligados à saúde, mais pessoas se mobilizam, desconsiderando as angustias pessoais, as angustias singulares, as angustias que muitas vezes não saltam aos olhos.
Referências
Felipe Chimicatti
Um comentário:
O texto trata de forma equivocada a história da senhora. Não devemos ter pena dela e sim fazer algo para mudar sua vida. A apologia da pobreza não resolve a questão e sim agrava. Francisco Gomes
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